“Ensinando a classe toda: o currículo escolar na perspectiva da inclusão”

Maria Teresa Eglér Mantoan - Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP - Faculdade de Educação - Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade – LEPED/ FE/ UNICAMP

Trataremos neste texto da organização curricular, diante do desafio de se ensinar a todos os alunos de uma mesma turma escolar, sem discriminá-los e na busca de uma educação mais justa e verdadeiramente aberta à diversidade.

As ações que estamos desenvolvendo no sentido de implementar projetos de educação de qualidade para todos os alunos, nas escolas públicas e particulares brasileiras é parte do conjunto de trabalhos desenvolvidos sob nossa coordenação no Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade/ Faculdade de Educação/ Unicamp, desde 1992.

Reconhecer a heterogeneidade das turmas e valorizar a diversidade no processo de desenvolvimento humano e de escolarização tem sido o objetivo desses projetos. Nossa tarefa central é a de reverter medidas excludentes adotadas pelas escolas, ao se defrontarem com as diferenças entre os seus alunos, na política educacional das redes de ensino e na maneira de ministrar a educação, nas salas de aula.

Atuamos no sentido de remover barreiras que impedem a escola e o aluno de obterem sucesso no ensinar e no aprender. A reorganização que propomos às escolas deriva das interações entre as diferenças e constrói-se a partir da pluralidade de seus componentes; alunos, professores, pais, diretores, especialistas, comunidades em que essas escolas se inserem.

Sabemos que uma das grandes dificuldades com a qual se defrontam atualmente as escolas para se adequarem aos paradigmas educacionais emergentes do mundo pós-moderno é a de ressignificar o modo pelo qual o conhecimento se elabora no meio escolar.

Assim sendo, os currículos acadêmicos estão sendo questionados, revistos, repensados.

Acresce-se a essa revisão, que toca o sistema educacional como um todo, a questão de se ensinar a todas as crianças em ambientes escolares que acolhem, respeitam e atendem às diferenças entre os alunos, ou seja, a inclusão escolar.

Os currículos das escolas inclusivas, ao contrário do que a maioria das pessoas imagina e propala, não são adaptados, não têm objetivos pré-definidos pelos professores, que se dedicam a encontrar os meios de facilitar as atividades, atenuar a complexidade dos objetivos, limitando as expectativas de quem ensina e aprende.

O desejo equivocado de não frustar os alunos com deficiência ou dificuldades para aprender, de protegê-los de tudo o que, contrariamente é motivo para que eles se desenvolvam no meio escolar é o que usualmente ocorre. No entanto, a escola que provoca descobertas, criações, que desafia e que desestabiliza os educandos, é a que buscamos, para que os alunos em geral possam saborear a aventura de conhecer, na medida de das possibilidades de cada um.

Estamos, portanto, caminhando na contra-mão do que é proposto oficialmente, como prática escolar para turmas que reúnem alunos com e sem deficiência. Essa prática implica em trabalhos individualizados pelo professor e de seleção de tarefas que são propostas por estes, antecipadamente, buscando adequá-las à capacidade de compreensão e ao desempenho dos educandos que apresentam dificuldades de aprender.

Acreditamos que é o sujeito da aprendizagem, o aluno, que se adapta à tarefa escolar e que ao professor cabe propiciar a todos, sem exceções, um conjunto de atividades abertas, nas quais cada aprendiz vai encontrar o que lhe satisfaz a curiosidade, o desejo de aprender, sem o controle externo e pré-concebido dos que propõem a atividade educativa.

Defendemos a idéia de que o conhecimento escolar é uma construção coletiva de saberes, que vão sendo paulatinamente constituídos, com a participação, a integração das experiências vividas pelos alunos e sistematizada em níveis de complexidade os mais variados, conforme suas vivências sociais e culturais, seus sentimentos, necessidades. Em outras palavras, o currículo escolar , ao nosso ver, é um instrumento pelo qual coletiva e democraticamente aprendemos e ensinamos a partir do que os alunos trazem à escola, como parte de suas vidas, de suas crenças e valores - ganchos através dos quais se estabelecem as relações de aprendizagem, o saber se expande e se aprofunda.

Em situações de ensino e de aprendizado como tais, não existem os alunos que sabem mais e os que sabem menos, no sentido de um desempenho esperado antecipadamente pelo professor e prescrito em seus planos de curso e planejamentos escolares. Considera-se o que cada um é capaz de contribuir para que uma situação, um fenômeno, uma proposta de trabalho escolar se esclareçam.

O currículo de uma escola para todos é necessariamente aberto à temáticas que revelam a pluralidade dos que compõem a turma. Dessa forma, trata-se de um instrumento que emerge do que conhecemos sobre esse grupo de pessoas, sobre suas famílias, suas origens e do quanto essa comunidade participa da concepção, das decisões, do modo como o conhecimento será abordado nas salas de aula.

Nossa intenção é fazer com que a escola deixe de girar em torno dos conteúdos acadêmicos como fins em si mesmos e faça deles meios pelos quais o conhecimento escolar se produz. Nesse sentido, os temas que constituem focos de estudo, previamente detectados no meio em que a escola se insere, passam a ser o núcleo em torno do qual a escola trabalha os campos conceituais, os professores escolhem as estratégias de ensino e os alunos aprendem.

Finalmente, queremos destacar que vencer o grande desafio do ensino escolar de nossos tempos – a articulação entre a instrução e a formação, depende de uma transformação da escola em seu ideário e de medidas que ela deverá adotar para responder de maneira includente às diferenças dos seus alunos.

Tais medidas implicam em uma só modalidade de ensino, que resulta da fusão entre a educação especial e a regular, da consideração da singularidade dos aprendizes . E, sem dúvida, de currículos que se respeitam o espaço e o tempo de aprender, norteando um ensino que reverte os padrões vigentes, pela busca de uma identificação com o alunado, a preocupação com a promoção e o desenvolvimento das novas gerações, livre das amarras da falsa eficiência e produtividade dos currículos tradicionais. Se pleiteamos uma escola para todos e de qualidade, nosso compromisso curricular deverá se pautar por decisões e propostas que apontem para uma ordem social sem preconceitos e mais solidária.

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